Clínica
Traição: como superar e quando procurar terapia de casal
Uma traição não tem de ser o fim. O que acontece depois, as três fases da recuperação, o que dizem os estudos e quando procurar terapia de casal.

Informação de carácter geral — não substitui consulta médica individualizada.
Uma traição não tem de ser o fim da relação, mas raramente se supera sozinho. Os estudos com casais em terapia mostram que muitos recuperam a confiança, sobretudo quando a traição é revelada e terminada. Procurem terapia de casal quando a conversa volta sempre ao mesmo ponto, quando a desconfiança não baixa ao fim de semanas ou quando precisam de decidir com clareza se ficam juntos.
Atualizado em 13 de outubro de 2026.
O que acontece numa relação depois de uma traição
A descoberta de uma traição costuma provocar uma reação muito parecida com um trauma, tanto em quem foi traído como na relação. É comum haver:
- Pensamentos intrusivos. A pessoa traída revê detalhes, horários e mensagens sem conseguir parar.
- Hipervigilância. Verificar o telemóvel, desconfiar de atrasos, precisar de saber onde o outro está.
- Oscilações fortes. Num dia querem reconstruir, no seguinte querem separar-se.
- Culpa e vergonha em quem traiu, muitas vezes misturadas com defensividade ("já pedi desculpa, quanto tempo vai durar isto?").
Nada disto quer dizer que a relação acabou. Quer dizer que a confiança, que antes era automática, passou a ter de ser reconstruída de propósito.
É possível superar uma traição?
Sim, para muitos casais. A investigação mais citada vem de um ensaio clínico americano com 134 casais em sofrimento grave:
| O que se estudou | O que se encontrou |
|---|---|
| 19 casais com traição revelada antes ou durante a terapia | Começaram mais em sofrimento do que os outros, mas melhoraram mais na satisfação com a relação do que os casais sem traição (Atkins et al., 2005) |
| Os mesmos casais 5 anos depois | Separaram-se mais vezes do que os casais sem traição; os que ficaram juntos estavam tão satisfeitos como os outros (Marín et al., 2014) |
Duas conclusões práticas: os bons resultados foram nos casais em que a traição estava revelada, e a terapia não garante que fiquem juntos, mas ajuda a que a decisão, seja qual for, seja tomada com clareza. Os números vêm de amostras pequenas e americanas, por isso servem de orientação, não de previsão.
As três fases da recuperação
Os modelos de tratamento mais estudados, como o de Gordon, Baucom e Snyder (2004), dividem a recuperação em três fases. Não são rígidas, mas ajudam a perceber em que ponto estão.
- Lidar com o impacto. Baixar a intensidade das discussões, combinar o que se pergunta e quando, e garantir que a relação extraconjugal terminou. Nesta fase, o objetivo não é perdoar, é deixar de viver em crise permanente.
- Perceber o contexto. O que se passava na relação, na vida de cada um e na pessoa que traiu quando a traição aconteceu. Perceber não é justificar: a responsabilidade continua a ser de quem traiu.
- Seguir em frente. Decidir, com informação, se querem continuar. Se ficam, reconstroem rotinas, intimidade e acordos novos. Se se separam, fazem-no com menos raiva, o que conta muito quando há filhos.
No estudo de Gordon e colegas, a maioria dos casais terminou o tratamento menos em sofrimento, e a pessoa traída referiu mais perdão. Era um estudo pequeno, com seis casais, mas o modelo é hoje usado por muitos terapeutas de casal.
O que ajuda (e o que costuma piorar)
| Ajuda | Costuma piorar |
|---|---|
| Terminar de facto a relação extraconjugal | Manter contacto "só como amigos" |
| Responder a perguntas com verdade, num momento combinado | Interrogatórios todos os dias, a qualquer hora |
| Quem traiu aceitar que a desconfiança dura meses | Pressionar para "virar a página" depressa |
| Cuidar de cada um: sono, apoio individual, rotina | Contar tudo a amigos e família em plena crise |
| Ajuda profissional cedo | Esperar que o tempo resolva sozinho |
Quando procurar terapia de casal
Procurem ajuda se:
- as conversas sobre a traição acabam sempre em discussão ou em silêncio;
- passaram semanas e a desconfiança, os pensamentos intrusivos ou a raiva não baixam;
- não conseguem decidir se querem continuar;
- há filhos e querem proteger a forma como falam um com o outro, fiquem ou não juntos;
- um de vocês está com sintomas de ansiedade ou depressão, insónia ou dificuldade em trabalhar.
Se só um quiser ir, pode começar sozinho. Uma sessão individual ajuda a pensar o que quer e, muitas vezes, a convidar o outro.
Quando a terapia de casal não é o primeiro passo: se houver violência física, ameaças ou controlo, a prioridade é a segurança. Em perigo imediato liguem 112. A linha de apoio a vítimas de violência doméstica é o 800 202 148 (gratuita, 24 horas) e a APAV atende no 116 006.
Como funciona na Lon Clinic
A terapia de casal online faz-se por videochamada, juntos no mesmo ecrã ou cada um da sua casa. A 1.ª sessão custa 45 € e marca-se diretamente, sem triagem antes. Depois, a sessão avulsa custa 75 € e a subscrição 65 €/semana. Os preços e o número de sessões a contar estão em quanto custa a terapia de casal em Portugal.
Se a traição aconteceu numa relação à distância, por exemplo com um de vocês emigrado, veja também a terapia de casal à distância.
Fontes
- Atkins, D. C., Eldridge, K. A., Baucom, D. H., & Christensen, A. (2005). Infidelity and behavioral couple therapy: Optimism in the face of betrayal. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 73(1), 144–150. doi.org/10.1037/0022-006X.73.1.144
- Marín, R. A., Christensen, A., & Atkins, D. C. (2014). Infidelity and behavioral couple therapy: Relationship outcomes over 5 years following therapy. Couple and Family Psychology: Research and Practice, 3(1), 1–12. doi.org/10.1037/cfp0000012
- Gordon, K. C., Baucom, D. H., & Snyder, D. K. (2004). An integrative intervention for promoting recovery from extramarital affairs. Journal of Marital and Family Therapy, 30(2), 213–231. doi.org/10.1111/j.1752-0606.2004.tb01235.x
- Fincham, F. D., & May, R. W. (2017). Infidelity in romantic relationships. Current Opinion in Psychology, 13, 70–74. doi.org/10.1016/j.copsyc.2016.03.008
- Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género — Linha de apoio a vítimas de violência doméstica, 800 202 148