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Luto à distância: perder um pai ou uma mãe estando fora

Perder um pai ou uma mãe enquanto vive no estrangeiro é um luto diferente. Porque dói de outra forma, o que ajuda e quando procurar apoio psicológico.

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Caderno e chávena de café numa mesa.
Pexels

Informação de carácter geral — não substitui consulta médica individualizada.

Perder um pai ou uma mãe enquanto vive no estrangeiro é um luto com camadas próprias: a distância, a culpa por não ter estado presente e, muitas vezes, a impossibilidade de chegar a tempo ao funeral. É normal que doa de forma diferente e durante mais tempo. Criar rituais próprios, manter contacto com a família e procurar apoio psicológico ajudam a atravessá-lo.

Porque é que o luto à distância é diferente?

Quem emigra vive, de certa forma, com um luto antecipado: sabe que um dia pode receber aquela chamada. Quando ela chega, junta-se à dor da perda um conjunto de coisas que quem está perto não sente da mesma forma:

  • Não ter estado lá. Nos últimos dias, na última conversa, no hospital.
  • Não chegar a tempo. Voos, trabalho, filhos, custos. Muitos emigrantes não conseguem ir ao funeral.
  • Voltar a uma vida onde ninguém conheceu a pessoa. No trabalho, os colegas dão os pêsames e seguem em frente. Não há ninguém com quem partilhar memórias.
  • A sensação de que a perda não é real. Sem o corpo, sem o ritual, sem a casa vazia à frente dos olhos, o cérebro tem mais dificuldade em aceitar. A psicologia chama a isto perda ambígua.

Não fui ao funeral. Como faço o luto?

Os rituais existem para ajudar a mente a registar que a perda aconteceu. Se não esteve no funeral, pode criar o seu:

  • acompanhar a cerimónia por videochamada, se for possível;
  • organizar um momento no país onde vive, com amigos ou sozinho: acender uma vela, cozinhar uma receita da pessoa, ouvir a música dela;
  • escrever-lhe uma carta com o que ficou por dizer;
  • visitar a campa quando for a Portugal, mesmo meses depois. Não é tarde.

Não há uma forma certa. O importante é dar ao luto um lugar.

A culpa: «devia ter estado lá»

A culpa é das emoções mais frequentes no luto à distância. Aparece como pensamentos do tipo «se não tivesse emigrado», «devia ter ido no Natal», «devia ter ligado mais».

Vale a pena lembrar três coisas:

  1. A culpa não mede o amor. Sente-a precisamente porque a pessoa lhe importava.
  2. As decisões foram tomadas com a informação que tinha na altura. Emigrar foi uma escolha de vida legítima, muitas vezes apoiada pelos próprios pais.
  3. Estar presente nem sempre muda o desfecho. Muitas pessoas que estavam perto também sentem que falharam.

Se a culpa se tornar constante e impedir o luto, é um sinal para procurar apoio. Saiba mais no artigo sobre a culpa de deixar os pais em Portugal.

O que ajuda no dia a dia

  • Falar da pessoa. Com irmãos, primos, amigos de infância. Uma videochamada para partilhar memórias vale mais do que parece.
  • Dar tempo ao corpo. Cansaço, insónia, falta de apetite e dificuldade de concentração são normais nas primeiras semanas.
  • Pedir ajustes no trabalho. Muitos países têm licença por luto; informe-se sobre os seus direitos.
  • Cuidar da família que ficou. Mas sem carregar sozinho tudo o que é burocracia e decisões à distância.
  • Aceitar que as datas vão custar. Aniversários, Natal, o Dia da Mãe ou do Pai.

Quando procurar ajuda psicológica

O luto não é uma doença e não tem prazo fixo. A diferença em relação a um quadro depressivo está em tristeza, luto ou depressão. Procure apoio se:

  • meses depois, a dor continua tão intensa como no início e impede o dia a dia;
  • não consegue falar da pessoa, ou não consegue pensar noutra coisa;
  • sente que a vida perdeu o sentido;
  • está a usar álcool ou outras substâncias para aguentar;
  • a culpa ou a raiva não dão tréguas.

Fazer este trabalho na língua materna, com alguém que percebe o que é viver entre dois países, faz diferença. Na Lon Clinic, as consultas de psicologia são online, em português de Portugal, com horários pensados para quem vive noutro fuso. O pedido certo é psicólogo para emigrantes.

Se sentir que não aguenta ou pensar em fazer mal a si próprio, ligue de imediato para o número de emergência do país onde está (112 na União Europeia e no Reino Unido).

Perguntas frequentes

Como lidar com a morte de um pai ou mãe estando a viver no estrangeiro?

Dando espaço a um luto que tem camadas próprias: a distância, a culpa e, muitas vezes, a ausência no funeral. Rituais pessoais, contacto com a família e apoio psicológico ajudam.

É normal sentir culpa por não ter estado presente?

Sim. É das reações mais comuns no luto à distância. A culpa não mede o amor nem a responsabilidade real pelo que aconteceu.

Quando devo procurar ajuda psicológica no luto?

Se, meses depois, a dor continuar a impedir o dia a dia, se não conseguir falar da pessoa ou se sentir que perdeu o sentido da vida.


Este artigo é informativo e não substitui uma consulta de psicologia.

Fontes

  • Organização Mundial da Saúde — CID-11, perturbação de luto prolongado
  • Pauline Boss — conceito de perda ambígua
  • Joseba Achotegui — luto migratório
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